Criança Desobediente – Abraçando o Incômodo

Por Juliana Brum, Educadora e Psicopedagoga

Meu último texto sobre criança desobediente me deixou com algumas inquietações que me orientaram a permanecer um pouquinho mais neste tema.

O que gera incômodo, ao contrário do que talvez ocorra com a maioria de nós, me atrai. Me segura por mais tempo. O que me incomoda me mobiliza. E também dói, claro. Mas, nem por isto, me intimida. Eu permito que o incômodo venha forte e faça o seu serviço. Cumpra seu papel de me tirar da fôrma, da programação conveniente. Não, eu não gosto de sofrer. Mas permito que o sofrimento cumpra seu papel. Nossos sentimentos e emoções são legítimos e não nos tomam por acaso. É preciso criar a partir deles. E isto é potente, é vida!



Bem, voltando à desobediência, posso dizer que sou bem desobediente e que talvez venha daí a minha identificação e até uma defesa em relação às crianças que o são, digo, que são assim denominadas. Há algo no mundo que precisa ser cotidianamente desobedecido ou, ao menos, questionado. As crianças sabem exatamente que algo é este e em que momento precisa ser questionado e desobedecido.

Nós, ao longo dos anos, nos desconectamos disto e nos distanciamos da nossa capacidade de reconhecimento sobre aquilo que é preciso desobedecer. Em relação com as crianças recebemos delas essa nossa capacidade de volta. Olha que presente! Quando crianças se negam a cumprir uma determinação adulta, por exemplo, podem estar tentando nos dizer “Porque você está me pedindo isto?” “Para que serve isto que você está me pedindo?” “Você faz isto que está me pedindo? E como se sente fazendo?” E quantos de nós topamos responder a essas perguntas? Respondê-las pode significar um encontro com a nossa infância calada em nome da obediência. Ou, por outro lado, rotulada pela desobediência. Este encontro gera incômodo, já que nos acessa em camadas profundas e com as quais, nem sempre, estamos disponíveis para lidar. Nesta nossa indisponibilidade, acabamos por ignorar as perguntas e, principalmente, as respostas. Sofremos, mas nem sempre entendemos. Daí respondemos a este sofrimento combatendo nas crianças o impulso de perguntar, questionar, enfrentar e…desobedecer.

Alícia Fernandez fala sobre a importância da capacidade de perguntar (e perguntar-se) e como isto se relaciona ao aprender. Não por mal, mas nossa ação de educar para a obediência não libera a criança para manter viva esta capacidade, nem nos cura do nosso sofrimento por estarmos tão desconectados dela.

Bem, este texto não é uma defesa a toda e qualquer prática chamada de desobediência, mas uma luz em direção ao caminho de uma educação mais plena, no sentido de abraçar a todos nós, adultos e crianças. As crianças que fomos e aquelas com quem convivemos e que logo serão adultos. Nossos filhos e estudantes não são “desobedientes” para nos afrontar, mas para nos estender a mão e dizer “estou enxergando o que você não consegue mais”.

Enfim, para educar é preciso desaprender muita coisa. É preciso desobedecer! Fazer as pazes com nossos incômodos e criar a partir deles. Caminhar com as crianças é manter viva a certeza de que estamos todos juntos nesta tarefa.

Referências:
FERNANDEZ, Alicia. Os indiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes e aprendentes em famílias, escolas e meios de comunicação. Alicia Fernandez; Trad. Neusa Kern Hickel; Regina Orgler Sordi. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Juliana Brum, Psicopedagoga e Consultora em Educação.
Atendimento a crianças, famílias, educadores, escolas e iniciativas parentais de educação em grupo ou individualmente. Co-fundadora do Movimento BrincaCidade. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
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