A Criança Desobediente e Os Adultos

Por Juliana Brum, Educadora e Psicopedagoga


É recorrente nos espaços que frequento a fala sobre as dificuldades para educar criança desobediente demais.
É realmente muito difícil entendermos que o que apontamos como desobediência  – em grande parte das vezes – é parte das transgressões fundamentais à construção da autoria e da autonomia que tanto dizemos querer que as crianças construam.

A desobediência é o golpe que nossos filhos dão nas nossas expectativas e em nossa ilusão de controle. Usá-la a nosso favor talvez seja a saída mais criativa que temos. Aproveitá-la para ampliar nossa percepção sobre nós mesmos e tentar modificar aquilo que não está funcionando (ou não) em nós. A criança está nos espelhando ou colocando uma lente de aumento naquilo que eu insisto em não ver para não mudar.



E, antes de mais nada, digo que esta não é uma “culpa” para recair apenas sobre a mãe. Quem convive com crianças sabe o quão desafiador isto pode ser. Mas o que temos feito? Soltamos as rédeas para construir junto com a criança, a cada momento, uma saída para os problemas? Não! Comumente, nos encontramos entre adultos estudando, tentando compreender o pensamento e comportamento infantis para, a partir disto, construir uma espécie de manual de práticas que garantam A MIM mesma a certeza de que estou tentando de tudo para educar da melhor forma possível.

No fim das contas, uso uma técnica ou uma forma de falar para conseguir o que eu desejo (e preciso) que a criança faça. Regras e técnicas adultas para viver num mundo adulto… Com isto, ignoramos a oportunidade que a criança nos dá diariamente de revisitar nossa história, nossas emoções, trazer à tona nossos defeitos mais escondidos, nossos medos e nos reconectar ao que é a nossa essência.

Ana Thomaz – que muito me inspira – fala em “criar a partir da nossa herança”.  Diz que estamos nos autocriando nas relações com outras pessoas. A partir disto, afirmo que não há gente mais viva e potente do que a criança para nos ajudar nesta tarefa. Elas nos pegam pela mão com uma disponibilidade, com um amor… e sem pedir nada em troca. Diante disto o que fazemos? Recusamos a mão, fechamos nossos olhos e agimos conectados com aquilo que há de pior (e que a sociedade chama de educação), fazendo exatamente o contrário do que eles estão nos pedindo (nos possibilitando).

Quem é desobediente aí mesmo, hein? É você, garota/garoto, que vai ficar sem ver TV se não vier agora tomar banho pra ir à escola! Traduzindo, EU te apresentei a TV para que EU pudesse “descansar” um pouco da sua presença. Agora faço uso dela para te manipular, controlar seus horários e desejos. O banho, talvez nem precisasse. Basta um por dia e não tá escrito em lugar nenhum que tem hora para acontecer. E sobre a escola…bem, a escola tem funcionado muito mais a serviço do adulto do que das crianças…mas isto é assunto pra outro texto.

Por ora, fica o meu convite à reflexão, será que precisamos de tantas regras e combinados para as crianças? Do que podemos abrir mão? Por que não confio mais no meu filho? Isto é respeito, é amor e investimento no sujeito capaz, digno, íntegro e alinhado à sua potência. É isto que libera a aprendizagem, desfaz as tensões produzidas pelo mundo e abre caminhos para a construção da autonomia.

Juliana Brum, Psicopedagoga e Consultora em Educação.
Atendimento a crianças, famílias, educadores, escolas e iniciativas parentais de educação em grupo ou individualmente. Co-fundadora do Movimento BrincaCidade. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
e-mail juliana.brum2@gmail.com
Tel: (21)98843-9377
Instagram Movimento BrincaCidade
Facebook Movimento BrincaCidade
Website Movimento BrincaCidade

1 comentário

  1. Natália comentou

    O texto seria melhor se fosse numa linguagem mais clara, como a Mamãe Tagarela escreve.

Deixe seu comentário!