Eu Deixo Meu Filho Tirar Brinquedos das Outras Crianças

Eu Deixo Meu Filho Tirar Brinquedos das Outras CriancasO bebê está brincando feliz da vida com seu brinquedo. Aí chega o irmão mais velho e toma o brinquedo das mãos dele. Essa cena é familiar para você? Aqui em casa isso começou a acontecer desde que a Mia começou a se interessar por brinquedos e é uma situação mais comum do que você pode imaginar.

Quando uma criança tira um brinquedo da mão do bebê, nós automaticamente sentimos empatia pelo bebê, porque na nossa cabeça isso é uma injustiça. O bebê, “coitadinho”, não pode fazer nada quando tiram o brinquedo das mãos dele. Nós automaticamente sentimos que temos que corrigir essa injustiça, tomar o brinquedo de volta e devolver o brinquedo para o bebê. E brigamos com o mais velho dizendo que ele não pode fazer isso. Mas será que estamos fazendo certo?

Uma especialista em comportamento infantil, Magda Gerber, defende que os pais devem intervir o mínimo possível em situações como essa, mantendo a calma e tentando entender e aceitar esse impulso da criança mais velha de tomar os brinquedos. Esse comportamento, na maioria das vezes, ocorre dentro de casa, entre irmãos.



“Eu recomendo que você intervenha o mínimo possível em disputas entre irmãos. Se a diferença de idade for grande ou a criança mais nova puder se machucar, é necessário um pouco mais de supervisão. Quanto mais as crianças puderem se resolver por conta própria, melhor. Faça o que fizer, um dos filhos vai se sentir injustiçado.”
– Magda Gerber, escritora e educadora infantil húngara formada em Sorbonne, que ficou famosa nos Estados Unidos com sua filosofia que chamou de “Educaring” (um jogo com as palavras Educar e Cuidar, em Inglês).

Nós temos que ter em mente as nossas metas a longo prazo. Nós queremos criar filhos que tenham boas relações conosco e com as outras pessoas, não é mesmo? Nós temos muito mais chances de conseguir isso se passarmos a confiar mais em nossos filhos e intervir menos em suas relações. Eis o porquê:

1- Pegar brinquedos é compreensível (e as crianças precisam sentir que são compreendidas).
Tirar os brinquedos das mãos do bebê faz sentido se a gente considerar o quão doloroso e assustador pode ser para uma criança quando ela vê seus pais dando atenção para outra criança. Esses sentimentos fazem com que as crianças mais velhas tentem retomar o controle, dominando o bebê. Tirar brinquedos do bebê é uma das formas que as crianças têm para recuperar esse senso de controle e de poder. Quando nós, pais, reagimos de forma exagerada ou brigamos com a criança por ter tomado os brinquedos, isso acaba aumentando o sentimento de medo e de perda da criança. Isso não reduz o comportamento de tomada de brinquedos. Pelo contrário, ele pode se intensificar e até se transformar em agressão física.

Aqui em casa, assim que a Mia começou a mostrar interesse por brinquedos, o Eric não deixava ela brincar com nada. Qualquer coisa que ela pegava, ele ia lá e tirava. Muitas vezes ele tirava tantos brinquedos das mãos dela, que nem conseguia dar conta de segurar tudo. Isso me deixava agoniado, eu brigava com ele, dizendo que ele tinha que dividir as coisas com a irmã dele. Não funcionava, ele ficava irritado, chorava, gritava e não queria de jeito nenhum compartilhar os brinquedos. Era nítida a frustração dele. Começamos a notar um comportamento agressivo. Ele chegou a bater na irmã, provavelmente porque se sentiu injustiçado e sentiu que estávamos “do lado dela” e ele não tinha nenhuma outra forma de extravasar sua raiva. Era como se ele dissesse para ela: “além de roubar meus pais de mim você ainda vai roubar os meus brinquedos?”. Nossos filhos estavam frustrados e nós também.

Quando descobrimos esse método proposto por Magda Gerber, decidimos experimentar deixar de intervir. E as coisas começaram a mudar. Em vez de brigar com ele, eu passei a dizer em um tom de voz calmo e sem emoção: “O Eric pegou o carrinho da mão da Mia”. Olhava para a bebezinha e falava “você estava segurando o brinquedo, mas agora quem está segurando é o seu irmão”. Aí eu entregava outro brinquedo para ela se distrair. Ele tomava outra vez e eu continuava narrando as coisas que aconteciam, sem julgar nem interpretar sentimentos. Reparei que todas as vezes que eu narrava, ele escutava atentamente o que eu dizia, mas sem responder.

Depois de alguns dias, parecia que o novo método não estava dando resultados. Estávamos quase desistindo, até que tivemos uma surpresa. Um dia, brincando no chão da sala, ele já tinha tirado uns 5 brinquedos seguidos das mãos da irmã. E sem que eu falasse nada, ele começou a devolvê-los para ela, um por um. Ele foi colocando vários brinquedos na frente da irmã. Inacreditável! Foi muito legal ver nosso filho descobrindo o prazer de dar brinquedos ao invés de só tirar. A partir daí, sem a nossa intervenção, ele raramente tira algum brinquedo das mãos dela. Quando tira, ele geralmente escolhe outro para dar para ela. Além disso, desde que paramos de brigar com ele quando ele tirava um brinquedo das mãos da irmã, reparamos que ele ficou menos agressivo e menos impulsivo com a bebê. Foi uma mudança da água para o vinho.

2- Brincar é percebido de forma diferente por crianças e adultos.
As crianças, especialmente os bebês, não têm noções preconcebidas sobre brincar. Pode levar anos para que eles aprendam como brincar e se relacionar com outra criança por mais de um minuto ou dois. Nós alimentamos esse processo de aprendizagem, oferecendo aos nossos filhos oportunidades para experimentar, confiando neles o máximo possível e resistindo ao nosso impulso de intervir, porque isso atrapalha a criança a desenvolver sua auto-confiança. Tirar e oferecer brinquedos é uma das formas mais comuns que bebês e crianças pequenas têm para brincar juntas e se entendermos essa dinâmica, vamos passar a ver esse comportamento com outros olhos.

Resolvi então aplicar essa técnica também na rua e vou contar para vocês como foi. Outro dia, na sala de espera do pediatra, nosso filho tirou um brinquedo de outro menino da mesma idade dele. O pai do outro menino olhou para mim, esperando alguma reação. A Thata também perguntou se eu não ia fazer nada, bem incomodada com a situação. Mantive minha posição firme de não intervenção, mesmo sob o olhar de reprovação do outro pai. Mas eu sabia o que eu estava fazendo. Não houve qualquer violência do meu filho com o outro menino ao tirar o brinquedo. Não houve briga, não houve desentendimento, nem choro. Tudo ocorreu de forma natural para eles. O outro menino olhou para seu pai, esperando uma intervenção. Ele entregou outro brinquedo para seu filho e disse: “toma, brinca com esse aqui”, o que também foi uma intervenção mínima e sem julgamentos. Momentos depois, o Eric largou o brinquedo e a outra criança pegou de volta. Alguns minutos depois, o menino tirou um outro brinquedo das mãos do meu filho, novamente sem confusão ou briga. A brincadeira seguiu assim e as duas crianças ficaram numa boa alternando brinquedos. Meu filho e a outra criança se entenderam na dinâmica deles e o outro pai, no final das contas, mudou sua expressão de preocupação em direção a mim e sorriu quando viu que as crianças estavam ótimas. É óbvio que se houvesse qualquer indício de comportamento agressivo, eu teria intervindo imediatamente.

3- As duas crianças precisam de nós ao lado delas.
Nós costumamos sempre defender o mais novo nessas situações, aquele que fica sem o brinquedo. Mas é importante lembrar que as duas crianças precisam de nós. A melhor forma de supervisionar as crianças brincando é tentar guiá-las sem julgá-las. Elas precisam que a gente esteja por perto dando-lhes segurança. Algumas orientações podem surtir bons efeitos, como falar “Você está pegando todos os brinquedos para você. Tem algum que você pode deixar a sua irmã brincar?” – sem julgar o comportamento como errado nem forçar a criança a fazer algo que ela não quer. É muito importante se certificar de que as crianças não ajam com agressividade umas com as outras. Se você perceber que os ânimos estão se acirrando, é hora de intervir, antes que um dos dois se machuque.

Não permita que eles machuquem uns aos outros, mas não se torne um juiz, dizendo quem estava errado e quem estava certo. Em vez de brigar com a criança pelo que ela fez, pergunte: “O que mais você poderia ter feito?”. Deixe que as crianças cheguem às respostas por elas mesmas. Tente fazer seu filho fazer algo porque ele quer e não por obrigação.  Quando você deixa de julgar, as crianças começam a compartilhar por vontade própria.



Aqui em casa funcionou. Se aí na sua casa o irmão mais velho tira os brinquedos do bebê, experimente intervir ao mínimo e depois venha contar os resultados pra gente!

Edição: Nós não aplicamos essa técnica na rua como regra geral e eu não sugiro que os pais apliquem essa técnica com crianças estranhas, pois isso pode gerar certo incômodo com os pais das outras crianças e tocar em pontos delicados como “não impor a educação do meu filho aos filhos dos outros”. A verdade é que esse incômodo existe entre nós, adultos, baseado nas nossas pré-concepções do que é socialmente aceitável ou não é. Para as crianças ele não existe da mesma maneira. A técnica de não-intervenção permite que as crianças interajam entre si em situações simples, sem depender de um adulto para “defendê-las” quando não existe perigo. Isso é prepará-las para a vida e encaminhá-las para a independência.

Um abraço,
Papai Tagarela

Fontes:
Magda Gerber
Janet Lansbury

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