Eu Não Estava Preparado Para Ser Pai

Eu não estava preparado para ser pai

Sarka Trager Photography

Antes de começarmos a tentar engravidar do nosso primeiro bebê, há alguns anos atrás, eu me sentia bem preparado para me tornar pai. Eu sentia que havia alguma coisa faltando na minha vida. Fizemos as contas dos gastos que viriam pela frente e concluímos: “não vai dar pra ter filhos”. Logo em seguida, começamos a tentar engravidar. Sentíamos-nos prontos e não queríamos adiar o sonho de sermos pais. Sabíamos que a estabilidade financeira não iria cair do céu, mas estávamos lutando por ela, ela viria com o tempo.

Eu me sentia preparado pra ser pai. Sonhava em ser pai babão, participativo e presente na vida dos meus filhos. Sentia-me maduro, pronto para fazer um level up (olha o nerd), passar para essa nova fase da vida. Engravidamos. Lemos muito, fomos a cursos de pais, conversamos com amigos e poucos foram os que nos disseram a verdade nua e crua. A verdade de que a paternidade e a maternidade estão longe de ser um mar de rosas. Ouvimos, mas a gente estava em outra vibe, curtindo a gravidez, sonhando com nosso bebê que estava para chegar.

Enfim, o Eric nasceu. Um dos momentos mais maravilhosos e felizes das nossas vidas! Eu estava definitivamente preparado para ser pai. Segurei ele no colo pela primeira vez e pensei “eu nasci pra isso”! Troquei fraldas como se fizesse isso há anos. Dei o primeiro banho, botei pra dormir. Pensei “isso é moleza, um pai nato”! Aí vieram as noites sem dormir, as cólicas, o refluxo, os choros intermináveis. Em poucos dias eu começava a ver que eu tinha sido estupidamente ingênuo. Vieram as dúvidas, preocupações e medos. Houve noites em que me desesperei. Tantas outras em que chorei de agonia por não conseguir ajudar o bebê. Ao fim da licença paternidade, meu corpo ia para o trabalho, mas minha mente estava em alfa. Zumbi total. Tive um medo insano de perder meu filho. Acordava no meio da noite pra ver se ele estava vivo. Enfim, cuidar de um bebê é uma tarefa pesada. É fisicamente exaustivo e psicologicamente extenuante.



Eu sabia que as coisas iriam melhorar. Repetíamos o mantra de todos os pais: “vai passar, vai melhorar”. O bebê cresceu, passou por todos os marcos de desenvolvimento e começou a falar. Mas as coisas não pareciam estar mais fáceis. As dificuldades iam se transformando. Vieram os terrores noturnos, depois os terrible twos e agora estamos entrando agora nos threenagers. Nesse meio tempo, veio a Mia. Como pais de segunda viagem, já sabíamos o que esperar. Pensei “dessa vez não vai ter surpresa, estou preparadíssimo pra ser pai”.

Mia chegou, um anjinho em nossas vidas. Os dois primeiros meses foram relativamente calmos, mas depois disso começamos a passar por situações completamente novas. Nosso ponto de referência era o primeiro filho e ela se comportava de maneira muito diferente dele! A rotina das mamadas, os padrões de sono, o grude com o peito, o choro por motivos diferentes, a personalidade, a aparente rejeição ao pai etc. A experiência com o primeiro filho às vezes parecia não servir de nada. As duas crianças são completamente diferentes.

Nós voltamos a repetir o velho mantra. Um dia ela vai dormir a noite inteira, um dia vai conseguir se comunicar sem ser por choro. É natural, é fase, realmente vai passar. Mas que é difícil, isso é. E virão novas dificuldades, tanto de um filho quanto do outro.

Hoje em dia, refletindo sobre quando eu me achava pronto para ser pai, vem um leve sorriso no meu rosto: como eu era ingênuo! Eu não estava preparado para ser pai! Arrisco dizer que ninguém está preparado para ser pai antes de efetivamente passar por todas as dificuldades envolvidas na criação de um filho, nem antes de sentir um amor tão grande que não cabe dentro do coração. Ninguém está preparado para amar alguém mais do que ama a si próprio.

Eu não estava preparado para ser pai, mas isso não é uma coisa ruim. Esse tipo de reflexão só me ajuda a enriquecer e a querer ser um pai melhor, mais paciente e mais dedicado do que já sou. Esse tipo de reflexão me leva a entender que nós não estamos preparados para o que a vida vai nos trazer amanhã.

Então, se você que está me lendo nesse momento vai ser pai ou mãe pela primeira vez e não se sente seguro nem preparado para isso, não se preocupe. A paternidade vai ser difícil para qualquer um. Eu te garanto que a paternidade vai transformar não só a sua rotina, mas ela vai transformar você, os seus valores, o seu modo de pensar e a maneira com que você encara a vida.

Imagem: Sarka Trager Photography

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