Inclusão Escolar de Crianças Atípicas

Por Juliana Brum, Psicopedagoga e Educadora

Preciso pedir licença para dizer, muito respeitosamente, que todas as crianças são atípicas. E o são porque são diversas e complexas. Todos somos!

A escola não é pensada para incluir crianças assim diagnosticadas, simplesmente porque a escola não dá conta da diversidade e complexidade inerente ao humano (e talvez não tenha mesmo que dar). O que é tido como normal é aquilo que pode ser contido, controlado e até medido. O que escapa, ameaça e compromete a necessidade de garantias, vendida pela escola e comprada por nós.



O conceito de educação que temos se confunde com o de escolarização e, por alguma razão, incorporamos isto e agora nem conseguimos ao certo identificar quando e como.

Já me peguei, como profissional de Educação e Psicopedagoga, fazendo pesquisas, buscas e mais buscas de estudos sobre os mais diversos diagnósticos recebidos pelos estudantes. Quanto mais eu buscava, mais conceitos eram criados (ou repetidos, não vem ao caso…) e a tendência era sempre ir em direção ao diagnóstico e tratamento. E menos em direção a saúde do sujeito e sua capacidade de aprendizagem, para além do diagnóstico. É preciso dizer que isto, muitas vezes, atende mais aos adultos do que as crianças, sejam elas consideradas atípicas ou não.

A criança precisa ser olhada e respeitada na sua singularidade. Nós, sociedade (adultos) é que precisamos lidar com isto e não o contrário! A escola se colocou no papel de vendedora de garantias, porque, de certa forma, nós estamos ávidos para consumi-las. Só se vende aquilo que tem público para comprar e é aí é que está um dos “pulos do gato” do sistema. Se não tem quem precise de garantias, ao invés de pararmos de vendê-las, criamos a necessidade de tê-las. A escola cria demandas que a aprendizagem não tem. Logo trabalhamos para a reprodução de uma lógica que mais nos distancia do que aproxima da aprendizagem plena e significativa.

Vamos à escola para aprender, nos é dito. Mas aprender o que, exatamente? Ora, aquilo que é necessário para que continuemos enquadrados à norma, ao normal, típico. Diante disto, obviamente, fica difícil incluir as crianças plenamente. Incluímos, portanto, precariamente.

Avaliamos de acordo com a capacidade do sujeito de reproduzir e de se enquadrar. Muito diferente de avaliar a partir da sua capacidade de aprender e de ser autor da sua própria aprendizagem. Isto é uma prática de todas as escolas, mais ou menos tradicionais para todas as crianças, atípicas ou não.

Daí eu pergunto, quem está incluído na escola? O que é estar incluído na escola? Para aprender é necessário estar incluído na escola? As instituições dirão que sim, já que é isto que vendem.

Já as crianças nos dizem diariamente o contrário. Aprendo, independente da escola. As dificuldades na aprendizagem surgem, todavia, quando sou podado naquilo que me mobiliza a aprender, minha autoestima, minha criatividade, minha autoria e meu direito (inato) a inclusão.

Não deveríamos chegar ao ponto em que uma instituição tão problemática quanto a escola tivesse o aval para definir quem está incluído ou não. Estamos todos incluídos, a medida em que estamos aqui, vivos, no mundo, nesta sociedade, neste tempo. Somos nós – sociedade – é que precisamos lidar com aquilo que definimos como normal. Se olharmos bem, os “diferentes” estão em maior número, mas vivem conduzidos por quem se autodenomina normal.

Sonho com um projeto que pretende unir famílias e educadores de formação. A idéia é que possamos trocar mais a respeito da educação e aprendizagem sem o intermédio da instituição escola. Ganharemos todos, adultos e, principalmente, as crianças. Por ora, vamos olhá-las como sujeitos, diversos na sua singularidade e subjetividade. Vamos respeitar suas características e lidar com elas, independente do meu conceito sobre elas. Para além das imposições sociais, que possamos buscar a saúde nas crianças e não classificá-las a partir do que consideramos atípico.

Que as famílias possam se informar sobre seus direitos e usufruir deles a partir de um lugar de merecimento, com autoestima e não de um lugar queixoso. A queixa ajuda a levar o foco para a “doença” e nos afasta da saúde. Alicia Fernandez já deixou registrado, “a queixa lubrifica a máquina inibitória do pensamento”, nos tornando incapazes de agir a partir de um lugar de autoria, desta forma. A família de uma criança atípica, se assim optar, pode e deve matricular seu filho/filha numa escola (a que preferir) e entender que esta criança precisa ser avaliada a partir da sua capacidade de aprendizagem e não do seu diagnóstico.

Que, para além da instituição escola, os profissionais da Educação se apropriem da responsabilidade (e da beleza!) de lidar com as crianças atípicas. Que possamos fazer um uso positivo da “função da ignorância” – já descrita por Sara Paín – deixando que permaneça viva a pergunta “o que posso aprender com essa criança?” E não “como farei com que essa criança aprenda algo?” É o não saber que cria espaços para o saber. Então que preparo é este tão fundamental para lidarmos com crianças atípicas que estamos buscando?

Se é exatamente a nossa ignorância o que nos mobiliza a construir tal modo de agir. Este “como lidar” não deve ser ensinado ao professor (ou a qualquer um de nós), mas entendido como algo que nasce do encontro com o outro e com o “não saber” que ele me traz. Seja qual for o diagnóstico que tenhamos em mãos, o importante é cuidarmos de abri-lo em direção às possibilidades do sujeito manter-se conectado à sua saúde e sua potência, em vez de torná-lo de tal forma fechado que bloqueie a capacidade (que todos temos) de aprender.



Referências:
FERNANDEZ, Alicia. A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem/ Alicia Fernandez; trad.: Neusa Kern Hikel – Porto Alegre; Artes Médicas Sul, 1994.

PAÍN, Sara. A função da Ignorância, vol. 2. A gênese do inconsciente/ Sara Paín; trad.: Alceu Edir Fillman – Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

Juliana Brum, Psicopedagoga e Consultora em Educação.
Atendimento a crianças, famílias, educadores, escolas e iniciativas parentais de educação em grupo ou individualmente. Co-fundadora do Movimento BrincaCidade. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
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