Pare de Mentir Para Seus Filhos!

Pare de Mentir Para Seus FilhosMuitos pais e mães se queixam de que seus filhos contam muitas mentiras. Mas como será que eles aprendem a mentir tanto? Em uma pesquisa recente nos Estados Unidos, 91% dos respondentes afirmaram que mentem de forma rotineira. Em média, as pessoas mentem cerca de 2 vezes por dia. Parece bastante, não é? Mas por que nós mentimos? A resposta curta é que mentimos para nos proteger, ou para nos promover ou para nos isentar de culpa. Claro que existem diferentes tipos de mentiras. Nós estamos acostumados, no nosso dia a dia, a minimizar certas situações e a contar algumas “mentiras brancas”. São aquelas mentiras sociais que aparentemente não fazem mal a ninguém, do tipo: “adorei o presente, obrigado”, “estou chegando em 5 minutinhos”, “seu cabelo ficou ótimo”. Podemos pensar em centenas de outras mentiras que ouvimos no dia a dia – para o chefe, para a mãe, para o cônjuge, para o amigo, para a vizinha etc. Toda mentira traz consequências e nenhuma delas é louvável ou aceitável, porém elas ficam entre adultos. As pequenas mentiras são parte do nosso mundo adulto. O problema é quando começamos a contar para as crianças essas mentiras que julgamos inofensivas. Será mesmo que elas não causam mal nenhum às crianças?

Mentir para nossos filhos destrói a nossa credibilidade como pais e distorce a realidade para eles. As crianças são muito literais, entendem tudo ao pé da letra. E cabe a nós, pais, educá-las da melhor maneira possível, preparando-as para um mundo feroz, difícil, competitivo. Educar é um processo longo, de muitos e muitos anos. Quanto mais conseguirmos criar crianças bem ajustadas ao mundo, melhor para elas e para o próprio mundo que deixamos para as próximas gerações. Crianças pequenas, antes dos 6 anos, são muito apegadas à linguagem e ao mundo físico. Por isso é muito importante que toda a nossa comunicação com nossos filhos seja clara, objetiva e sincera. Nós somos o maior exemplo para eles. Se não queremos que nossos filhos sejam mentirosos, devemos nos controlar e parar de mentir para eles também!



Vamos a alguns exemplos práticos:

“Depois a mamãe compra” – não diga isso se você não pode dar aquele brinquedo caro que a criança está pedindo. Diga: “Eu sei que você quer muito esse brinquedo, mas a mamãe não pode comprá-lo agora”.  Em seguida tente desviar a atenção da criança para outra coisa. Não faça promessas que você não pode cumprir. Não diga que vai fazer algo se não pretende fazer num futuro muito próximo. Antes dos 4 anos de idade, a criança ainda tem uma noção muito confusa de passado, presente e futuro. É entre os 8 e 10 anos de idade que as crianças passam a ter uma noção de tempo parecida com a nossa e a entender o futuro. As crianças vivem no aqui e agora, então o segredo é sempre mudar o foco delas para outra coisa, é melhor do que fazer promessas vazias e é mais respeitoso com a criança.

– Outro dia o Pititico acordou mais cedo e me viu sair de casa para o trabalho. Ficou muito frustrado de me ver indo embora. O avô dele falou “papai já volta!” e eu imediatamente corrigi. Ajoelhei-me na frente dele, dei um abraço e disse “papai está saindo para o trabalho e vai demorar pra voltar, eu sei que você está triste. Fica com o vovô hoje, que papai volta na hora do jantar.” As crianças não têm uma boa compreensão do passar do tempo, mas usando referências da rotina dela, elas conseguem entender melhor.

– Numa viagem longa, é tentador dizer “já estamos chegando”, mas tente não fazer. Se ainda vai demorar a chegar, diga a verdade, por mais que a criança ainda não entenda a noção de horas. Diga “Nós vamos passar um tempão no carro, mas vamos fazer várias coisas divertidas durante o caminho”.  Ao viajar de carro ou avião com crianças, programe atividades variadas para mantê-las entretidas. Livros, brinquedos, desenhos animados no celular ou tablet, quebra-cabeças etc. De carro ainda é mais fácil programar algumas paradas estratégicas para as crianças liberarem um pouco de energia. Esqueça aquelas viagens loucas Rio-Bahia dos tempos de solteiro, em um dia e meio de viagem em ritmo frenético, com paradas cronometradas.

– Não diga “a gente volta aqui depois” para convencer seu filho a ir embora de um lugar que ele gostou muito, a não ser que você tenha intenção real de voltar. Essa mentira pode aquietar a criança temporariamente, mas não vale a pena.

– Não engane seu filho para fazê-lo comer outra coisa. Não fale “pode comer, é frango” se você quiser que ele coma aquele peixe que ele nunca quer comer. Esse ponto da alimentação é bem complicado, eu sei, mas tente dizer algo do tipo “é parecido com frango e é muito gostoso”. Ah, falando nisso, também não cola muito dizer que uma comida ruim é “muito gostosa”. Nessas horas é melhor apelar para algo que não seja o sabor – as cores vivas, o formato diferente etc. Outro dia consegui fazer o Pititico comer um purê mostrando que ele ficava grudado na colher ao virar a colher para baixo.

“Nosso cachorrinho foi morar numa fazenda” ou “o peixinho foi viver com os amiguinhos dele no mar”. Falar sobre morte com crianças é realmente muito difícil, mas o caminho da mentira está longe de ser o ideal. Já imaginou o que pode passar na cabeça da criança? Já pensou que ela pode se sentir culpada pelo cachorro ter ido embora? E que pais insensíveis são esses que levam o “meu” bichinho querido embora sem nem me deixar dizer tchau? Além disso, essa é uma mentira que um dia os pequenos vão descobrir e podem ficar chateados com vocês, com toda a razão. Seja franco, fale sobre a morte como parte inevitável da vida e ajude seu filho a passar pelo luto. É muito importante as crianças aprenderem sobre a finitude da vida e a lidar com tristezas por grandes perdas, até porque mais perdas se seguem ao longo da vida e a criança vai ficando cada vez mais ajustada a lidar com situações de morte.



“Não vai doer nada”. Eu me lembro bem dos tempos do merthiolate. Por que nossas mães ainda tentavam nos enganar, dizendo que não ia doer nada? Aquilo ardia até na alma! Essa é uma mentira automática de pais de todas as gerações, mas o que você ganha falando isso? Eu te respondo, você ganha uma criança relativamente calma por 30 segundos, porque ela confiou no que você disse para ela. E logo em seguida, lá vem injeção ou qualquer outra coisa muito dolorida para desmentir o que você acabou de prometer à criança! O que isso ensina ao seu filho? Respondo de novo: ensina ao seu filho não acreditar mais em você. Isso mesmo. Além disso, você está ensinando à criança que a mentira é uma saída válida e aceitável para qualquer situação da vida. E se você fizer isso sempre, da próxima vez que você falar que alguma coisa não vai doer, será que seu filho vai acreditar em você, mesmo que seja algo inofensivo? Dê o exemplo, seja corajoso e diga “a injeção pode doer sim, mas a mamãe vai ficar aqui do seu lado te abraçando. Mas é uma dor que passa, é ruim, mas é para o seu bem”.

– É muito comum os pais dizerem “Ah filho, sei lá!” porque estão sem tempo ou sem paciência para explicar alguma coisa. Se você já chegou na fase das perguntas intermináveis você deve saber bem como é difícil. Aqui em casa parece que estamos chegando nela, o Pititico aponta para todos os objetos do quarto, do banheiro ou da geladeira e pergunta “e esse aqui?”, querendo saber o nome de tudo. Mas pense que a criança só está tentando entender mais sobre o mundo e você é o maior exemplo de conhecimento e sabedoria que ela tem. Pelo contrário, devemos sempre encorajar esse tipo de comportamento curioso e essa sede de informações. Tenho memórias muito boas de viagens de carro com meus pais em que eu ia do Rio a Friburgo perguntando um milhão de coisas e meu pai respondia a tudo calmamente (obrigado pai!). Isso com certeza contribuiu para eu sempre continuar buscando saber mais e mais sobre tudo. É claro que não saberemos as respostas de tudo na ponta da língua. Que tal anotar e pesquisar as respostas depois junto com seu filho? Nada melhor do que aprender juntos.

– Há outras mentiras muito bobas que estamos acostumados a ouvir e a repetir, algumas delas são praticamente ditos populares. Quem nunca fez careta e ouviu “se passar um anjo e disser amém você vai ficar com essa cara pra sempre” ou “sai de perto da TV porque estraga a vista” ou “se engolir chiclete ele gruda no estômago” ou a clássica das clássicas da minha infância “videogame estraga a televisão!”. São mentiras aparentemente bobas que os pais usam para convencer seus filhos, mas repare que todos as razões nessa lista apelam para o temor: medo de ficar com a cara torta, medo de ter problemas na barriga ou nos olhos, medo de estragar a TV etc. Não devemos educar nossos filhos colocando medos e inseguranças neles.

Minha última dica, um pouco mais abrangente, é: não diga qualquer coisa para convencer seu filho no calor do momento e se livrar da situação. Crianças precisam aprender a ouvir não, precisam aprender a lidar com tristezas e frustrações. Ao falar a verdade e dizer “não” para seu filho, você está preparando ele para a vida adulta, você está criando uma criança mais ajustada ao mundo real. É muito importante que a criança estabeleça um vínculo forte de confiança com seus pais e o melhor caminho é o da sinceridade. Lembre-se, você é o modelo do seu filho, ele vai ser o reflexo de todas as suas ações.

Um Comentário:

Dê a sua opinião: