Querida Amiga Que Não Tem Filhos

Querida Amiga Que Nao Tem FilhosQuerida Amiga Que Não Tem Filhos

Minha amiga, eu consigo sentir a saudade que você tem da minha presença, por mais que eu ainda esteja presente na sua vida, por mais que eu tente bastante te ver sempre que possível, eu gostaria que você lesse essa carta que eu escrevo com o coração aberto para tentar te fazer entender como a minha vida mudou da água para o vinho, mas saiba de uma coisa, o meu amor por você continua o mesmo. Você continua sendo a minha amiga querida.

Eu entendo que você ache estranho eu não querer ir a um bar com o meu bebê pequeno, afinal de contas você já viu pessoas fazendo isso. Eu entendo que você ache que eu estou me prendendo demais por não ficar até tão tarde com o meu filho em festas, afinal de contas, você já viu vários bebês dormindo em carrinho de bebê tranquilamente até a hora dos pais irem embora. Eu entendo que você estranhe que eu não goste muito de sair para jantar ou almoçar e levar o meu filho junto, afinal, é só dar um papel e caneta que ele fica quieto, não é? Mas não é! Não é tão simples assim, o meu bebê ainda é pequeno e bebês pequenos precisam de atenção o tempo todo. Eu mesma não achei que fosse tão complicado, mas é. Só depois que nos tornamos mães que sabemos como a nossa vida vai ser. Cada bebê é de um jeito, cada criança é de um jeito e espero que você tente entender um pouquinho o meu lado. Mas um dia isso vai passar, um dia isso vai melhorar.



Eu gostaria de te contar que, desde que o bebê nasceu as coisas tomaram um rumo que eu não estava imaginando. Eu não fazia idéia das dificuldades que estavam por vir. Noites sem dormir direito, por exemplo. O sono deixa qualquer pessoa baratinada e sem conseguir pensar direito. Cheguei a fazer inúmeras besteiras por privação do sono. Quando um bebê nasce, querida amiga, a mãe não consegue mais dormir como antes. Algumas mães acordam a cada 1h para amamentar, outras conseguem dormir um pouco mais que isso. Mas um bebê pequeno, querida amiga, acorda várias vezes de madrugada e isso é normal. Então muitas vezes quando o dia amanhece, já estou acordada há um tempão e só vou dormir depois que todo mundo na casa já está dormindo.

Outra coisa que eu queria te contar é que no início também tive dificuldades para amamentar. Amamentar não é tão fácil como deveria ser. Dói, sangra, as vezes dá mastite, as vezes você precisa usar antibiótico tópico, as vezes a pega não está correta. São inúmeras dificuldades que uma mãe encontra na amamentação que faz com que a maioria acabe desistindo de amamentar. Muitas desistem com dor no coração e com uma culpa enorme de não ter conseguido, por saber que o leite materno é o melhor para o bebê. Culpa essa que eu carrego até hoje.

Quando um bebê nasce, minha amiga, os baby blues aparecem. Acontece uma queda de hormônios no corpo da mulher que faz com que ela se sinta “estranha”. É chorar por amor, é chorar por medo de perder o filho, algumas têm depressão pós parto. Não estou dizendo que uma mãe não fique feliz de estar com o seu bebê nos braços, mas é que essa mistura de oscilação de hormônios, alegria e exaustão mexe muito com qualquer mulher. É um período de ajuste, então é normal que qualquer recém mãe queira ficar em casa e que precise de um período só dela e do bebê chamado “lua de leite”.

Agora que o bebê já se locomove, fica muito complicado de ir a uma casa sem estrutura pra receber crianças. Aqui em casa os armários perigosos são trancados. Facas, vidros, tesouras etc. Também não deixamos nada em cima da mesa de centro da sala, porque sabemos que ele vai pegar. Fios de computador, abajour ou qualquer outro eletrônico ficam escondidos. Entenda, minha amiga, que fica difícil levar o meu bebê na sua casa porque ele vai querer mexer em tudo, vai quebrar, vai querer escalar móveis e como eu estarei correndo atrás do bebê o tempo todo, não conseguiremos nem sentar e conversar em paz.

Além de tudo amiga, sair de casa é um suplício e quando saímos acabamos chegando, na maioria das vezes, atrasados. A criança decide fazer cocô sempre na hora de sair, quando já está todo arrumadinho e lindo. Muitas vezes esse cocô vaza para as costas e temos que trocar tudo, não só a fralda como a roupa também. Quando não é cocô é golfada de leite que volta e suja tudo. Muitas vezes temos, até mesmo, que levar a criança para o banho novamente. É por isso que muitas vezes eu chego atrasada nos nossos encontros.

Já reparou a quantidade de coisas que temos que levar quando saímos de casa? É fralda, uma roupa extra, lenço umedecido, pomada, trocador, babador, colherzinha, um casaco… é tanta coisa que eu sempre esqueço algo e tenho que voltar para pegar, mesmo quando já estou no carro, alguma vezes quando já saí da garagem com o carro. Pode ser até excesso de zelo, não sei. Mas a maternidade nos faz assim. Ser mãe é você se preocupar com outra pessoa mais do que você se preocupa com você mesma. Amiga, um dia você vai descobrir como é isso.

Minha amiga, quando você marca algum jantar muito tarde e eu digo que não tenho como ir, não fique chateada, por favor. Bebês tem horário e quando tiramos eles dos horários a vida fica mais difícil. Eles ficam chorosos e sair da rotina não é uma boa para um bebê pequeno. Isso complica a vida da mãe, muitas vezes não querendo mamar antes de dormir, outras vezes lutando demais contra o sono. Parece meio estranho, mas é isso mesmo, quanto mais cansado um bebê, mais difícil de fazê-lo dormir.

Estou te contando essas coisas porque eu, na verdade, queria me desculpar por estar mais ausente do quanto eu gostaria de estar, mas queria também que você entendesse um pouco do que se passa comigo. Sim, eu sei que você conhece pessoas que não sofreram tanto com a maternidade como eu estou sofrendo para me ajustar. Mas aqui em casa eu escolhi criar dessa maneira por ser melhor para mim e para o meu bebê, um dia, minha amiga, que você tiver o seu bebê em seus braços, talvez você me compreenda um pouquinho.



Te peço que tenha paciência porque as coisas vão melhorar. Dizem que as crianças crescem rápido demais e eu já estou sentindo isso na pele com o meu filho. Quero aproveitar esse momento ao máximo com ele antes que seja tarde demais. Agora eu sou dele, mas não significa que deixei de ser sua amiga. Não significa que deixei de gostar de você. Só significa que por hora ele precisa mais de mim do que qualquer outra pessoa.

Um dia quando nossos filhos forem maiores, sim, porque eu acredito que você terá o seu também, aí poderemos novamente sentar com calma em um bar ou em um restaurante e comer algo com calma, tomar um drink e conversar com tranquilidade. Esses dias vão voltar e nós, como mães, teremos a sensação de papel cumprido.

Ainda estou aqui e aqui continuarei para você.
Um beijo cheio de saudades da sua amiga.

Foto:
JK Photography

2 Comments:

  1. Lindo texto, porém precisamos parar de assumir que toda mulher quer ser mãe. Não é “quando você tiver o seu”, e sim, “SE”.

    • Thata Tagarela

      Concordo, Raquel. Mas no caso dessa carta eu escrevi pensando em uma amiga específica e atualmente ela está grávida :)

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