Relato de Parto de Um Pai com Dicas

relato de parto de um pai com dicas

Olá papai, você já parou pra pensar qual deve ser o papel do pai durante o trabalho de parto? Se ainda não pensou nisso, está na hora de largar o Playstation e se informar. Você está preparado para a chegada do seu filho(a) ao mundo? Seguem aqui as dicas do Papai Tagarela para que o trabalho de parto seja uma experiência muito positiva para a sua parceira! Tudo baseado na minha experiência do parto da Baby Mia.

– Leia sobre trabalho de parto. O parto não é nada parecido com o que se vê nos filmes ou novelas. É um processo geralmente lento e muito cansativo para a mãe. Alguns autores comparam o trabalho de parto a correr uma maratona. É importante que você, pai, entenda, mesmo que superficialmente, sobre as diferentes fases do trabalho de parto. Nós temos alguns excelentes textos sobre trabalho de parto aqui no blog, o que já é um bom começo. Tendo se informado um pouco, você logo descobrirá que o trabalho de parto vai começar em casa – apenas você e ela, sem profissionais de saúde. E você vai saber que não é pra sair correndo para o hospital igual a um doido, a não ser que algo pareça estar errado. Na dúvida, ligue para seu profissional de saúde ou para sua doula.



– Contrate uma doula. Não sabe o que é isso? Leia esse texto explicando para que serve uma doula. Nós contratamos uma doula e essa foi uma das melhores decisões que tomamos em relação ao parto. Não é barato, mas é um excelente investimento. Além da doula ser uma expert em partos, ela ainda divide com você, pai, algumas das responsabilidades que vou listar a seguir.

– Você será a âncora da sua parceira. Ela é, evidentemente, a protagonista. E você será o apoio dela – emocional e físico. Ela precisa que você esteja presente de corpo e alma. Lembre-se, esse é um momento único na vida da mulher, um momento que ela vai lembrar para sempre. Ajude-a a ter uma experiência positiva. Se você participar ativamente do trabalho de parto, se você for o suporte dela, ela se lembrará para sempre. Da mesma forma, se você for omisso, ela também se lembrará de como você foi um inútil. Do lado físico, saiba que você vai ficar cansado também, especialmente se participar ativamente do parto, ajudando-a com posições e suportando o peso dela e do bebê nos seus braços.

– Ajude-a a seguir seu plano de parto. Se sua parceira ainda não montou um plano de parto, sugira que ela faça um, seja sozinha, com a sua ajuda, com a ajuda de uma amiga ou da doula. Leia também nosso texto sobre plano de parto. Entenda o que ela espera do parto, seus desejos, medos, preocupações. Converse com ela para saber o que ela pensa a respeito de uso de anestesia ou outros métodos para alívio de dor. Não deixe para ler o plano de parto quando ela estiver em trabalho de parto, aí será tarde demais. Durante o trabalho de parto, reforce o plano dela com a equipe médica e baseie-se nas vontades dela para tomar decisões quando ela parecer esgotada demais para reafirmar suas escolhas.

– Seja forte. Uma das minhas maiores dificuldades foi quando a Thata começou a pedir por anestesia e nada podia ser usado no momento. Eu me sentia impotente e angustiado ao ver minha companheira sofrendo e pedindo algo para aliviar a dor. Mas tive que ser forte. Chorei escondido, mas ela não tem nem idéia. Você precisa passar para ela muita segurança! Apesar da dor, ela estava num momento crítico do trabalho de parto, quando tentava fazer a Mia se virar. Ela sentia muitas dores nas costas além das contrações. Eu e ela havíamos combinado que só daria anestesia se ela pedisse muito, quase implorando. O problema foi que quando ela implorou, o único anestésico que poderia ser usado era a petidina, que queríamos evitar porque ela pode deixar o bebê sonolento e desacelerar o trabalho de parto. Naquele momento a petidina poderia levar tudo a perder, pois o trabalho de parto evoluía bem. Eu dizia para ela “você não pode tomar nada agora, a anestesia que podem te dar agora vai deixar o bebê sonolento”. Ela entendia e desistia, mas poucos minutos depois pedia novamente. Eu, com dor no coração, e a doula tivemos que administrar a situação: falávamos para ela que ela teria sim algo para aliviar a dor, mas não naquele momento. Ela seguiu em frente tolerando as dores das contrações, além da dor nas costas, porque baby Mia estava tentando se virar, e lutando contra febre de uma infecção que já estava se instalando e a gente descobriria só depois. Após o dia inteiro de trabalho de parto, infecção e febre, ela tomou epidural e assim conseguiu descansar sem dores, mas isso também desacelerou o trabalho de parto.

– Seja um filtro de informações. Durante o trabalho de parto, a mulher sente dores extremas e depois de horas se sente exausta. Você acha que ela vai absorver todas as informações que a equipe médica tentar comunicar a ela? Dificilmente, até porque muitas vezes a equipe usa termos técnicos. Uma de suas responsabilidades é se comunicar com a equipe médica e passar para sua parceira as informações de forma mais simples e mastigada, nos momentos adequados. Na nossa experiência aqui na Irlanda, apesar de a Thata falar inglês fluente, ela se comunicava instintivamente em português e eu traduzia tudo para a equipe médica. Independente de linguagem, pode ser que sua parceira fale com você de algo delicado e você precise passar a informação ou vice versa.

– Use roupas e calçados confortáveis. Eu entendo que você queira estar bem vestido para o momento da chegada do seu bebê, mas lembre-se que um trabalho de parto pode durar muitas e muitas horas. E você sendo o parceiro proativo que você vai ser, vai precisar fazer um certo esforço físico também, dando apoio à sua parceira, sustentando seu peso mais o peso da barriga. Na minha experiência, eu usei um calçado inadequado e fiquei com bolhas nos pés no final de tudo. Eu deveria ter usado aquele tênis de corrida que comprei mas nunca usei pra correr – sim, aquele com super amortecedores. Leve também uma sunga ou calção de banho, caso faça alguma parte do trabalho de parto junto com ela no chuveiro ou dentro da banheira. Minha experiência dando apoio a ela sob o chuveiro foi ótima, me fez sentir mais parte daquele acontecimento especial e muito mais próximo dela e do bebê que estava por vir.

– Seja como uma sombra. Ou um ninja, sei lá. Você deverá estar todo o tempo ao lado de sua parceira, mas muitas vezes vai precisar ser invisível. Não fique em cima, não fique fazendo perguntas idiotas, não a pressione nem deixe que qualquer pessoa a pressione. Faça-se presente e mantenha a distância ao mesmo tempo. Não há regras, você conhece sua parceira melhor do que ninguém e vai ter que se virar pra saber quando se aproximar e quando se afastar.



– Releve abusos verbais ou atitudes agressivas. Por mais calma que sua parceira seja, o trabalho de parto envolve muitas dores e muito cansaço. Envolve também uma grande alteração hormonal no corpo da mulher. Por isso, ela pode agir de forma agressiva ou grosseira. Às vezes ela pode parecer que está fora de si, pode parecer que é outra pessoa. E é nessas horas que você terá que ser mais forte. Como dizem aqui na Irlanda, “tome a porrada no queixo e siga em frente”. É possível que ela te mande ir praquele lugar ou algo semelhante. Já li relatos de mulheres que arremessaram objetos na cabeça de seus parceiros só porque eles estavam muito em cima (alô Renata!). Se isso acontecer, não se abale, respire fundo, releve e não mude a sua atitude de apoio a ela. E no final de tudo, sem ressentimentos, ok? Na minha experiência, nas vezes que a Thata ficou irritada comigo, eu já estava preparado e vacinado que isso podia acontecer, então não me afetou em nada e tudo seguiu normalmente.

– Desconecte-se, mas saiba administrar a ansiedade dos avós. O ideal é que você e sua parceira fiquem 100% focados no trabalho de parto. Esqueça o celular e internet. Porém em tempos de whatsapp, se o parto for longo, você pode mandar uma mensagem de vez em quando para os avós dizendo que está tudo bem. Não deixe a sua parceira perceber, o ideal é que ela não se sinta “observada virtualmente”. Eu mandava mensagens com intervalos de algumas horas entre uma e outra, pois o parto foi bem longo e estavam todos ansiosos por aqui, até porque não estão acostumados com o sistema público de saúde Irlandês, nem conhecem o hospital etc.

– Tenha água ou bebida tipo Gatorade sempre à mão e leve canudos! É muito importante a mulher se manter bem hidratada durante o trabalho de parto. Lembre-se, é uma maratona. O canudo é ótimo para ela conseguir beber líquidos enquanto estiver fazendo diferentes posições. Prepare também lanches leves: bolachas de água e sal e frutas refrescantes que não causem enjôo, como maçãs e peras. Nada muito pesado para não encher o estômago no caso de uma eventual cesárea.

Resumindo, seja o braço direito dela, esteja presente em mente e corpo, entregue-se totalmente ao momento, mergulhe de cabeça no milagre do nascimento de um bebê. Torço para que sua experiência seja tão rica e emocionante como a minha! Um abraço do Papai Tagarela.

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