Relato de Parto no Maria Amélia (SUS) – Joice Scavone

Joice Scavone e Diogo Lisboa pariram no Hospital Maternidade Maria Amélia, no SUS, sob os cuidados da doula Malu Prates. A Joice nos concedeu o prazer de publicar aqui o seu relato de parto:


 

“No dia do aniversário de 30 anos fiquei grávida. O reloginho nem havia começado a bater, ter um filho não estava nos planos. O resultado do teste veio por e-mail, após o show do Fagner. Entre uma musica e outra no meio do karaokê, soube que eu estava “MUITO grávida”. Depois do susto, pensamos na possibilidade de abortar. Foi inesperado, fruto de uma relação intensa, mas no começo. Foi uma decisão ter, uma decisão tão corajosa e pensada como seria se escolhêssemos abortar. Aproximou geografias, união de pai mineiro com mãe paulista para gerar um filhote carioca. Uma reviravolta sem par em nossa história: caso não fosse possível ficarmos juntos, não seria impossível criar um filho, mas seria muito difícil. Ele foi resultado de muito amor, mas toda esta transformação exigiu muita força de vontade para além do conto de fadas. O parto foi resultado de toda essa força e vontade. Lemos o “A Maternidade e o encontro com a própria sombra”, da Laura Gutman, e o Diogo trouxe da experiência de um piloto há pouco filmado a nossa Doula: Malu Prates. Eu nunca havia ouvido falar em Doula, achei interessante, mas deixei claro que era algo muito íntimo e que eu teria que acreditar naquele processo proposto.

Relato de Parto no Maria Amelia (SUS) - Joice Scavone (1)O encontro com a Doula veio logo depois de descobrirmos que o meu plano de saúde não cobriria o parto. O que era uma preocupação, transformou-se em solução. A Malu nos recomendou a Maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda e nos indicou o projeto cegonha. Tudo nos foi dito, desde o projeto pioneiro de parto humanizado, até a fatalidade de alguns falecimentos que chamaram a atenção para o hospital e gerou um abraço na maternidade em defesa do pioneirismo que nasceu da missão da redução de mortes materna e infantil.

A obstetra que acompanhou meu pré-natal também recomendou o hospital e durante toda a gravidez fazia recomendações que garantissem condições para um parto normal. Eu e o Diogo fomos visitar a Maria Amélia e fomos muito bem tratados pelas enfermeiras, as outras mães e os funcionários da Maternidade. No preconceito que se tem com o serviço público, lá as funcionárias pareciam acreditar no projeto que faziam ser concretizado. A enfermeira durante a visita me recomendou que chegasse já com uma dilatação mais adiantada, já que nós teríamos uma Doula.

A Doula foi importantíssima para o nosso parto, mas essa questão se apresentou em vários momentos. Primeiro, uma amiga havia parido na Maria Amélia quando não permitiam Doula por ser um serviço particular em hospital público. Depois, soubemos que era autorizado, mas o ideal seria que todas tivessem acesso e fosse um serviço oferecido pelo SUS. Enfim… é possível parir sem Doula e eu recomendo o serviço oferecido no Maria Amélia, mas tenho que relatar o quão importante para nós foi termos o auxílio desta especialista. Eu e o Diogo tivemos dois encontros com a Malu antes do trabalho de parto. Estes encontros foram importantíssimos pela informação e suporte emocional que nos acalentou para lidarmos com as adversidades.

O meu tampão saiu no dia 29 de abril. O Diogo estava trabalhando em BH, mas conseguiu um vôo e chegou para me acompanhar por todo o processo. No dia 30 rolou um sangramento tenso. Eu tenho Lúpus, então a Malu recomendou que fossemos para o Maria Amélia e fiz vários exames. O bebê estava bem e eu também, então voltamos pra casa. Neste dia, me assustou o número de mães que por um motivo ou por outro imploravam por uma cesárea e me agradou o fato de as enfermeiras e médicos argumentarem em defesa do parto normal tendo a cesária apenas como opção em caso de emergência. As mães chegavam a reclamar que era uma questão de economia, que a maternidade não queria gastar com uma cirurgia por eles serem pobres… já que os ricos optam por cesárea todos os dias nos hospitais particulares.

O dia não estava para praia, então o carioca Antônio decidiu esperar mais um pouco. As contrações constantes começaram no dia 01 de maio às 0h. De trinta em trinta minutos até ficar de três em três minutos. Eu e o Diogo ouvimos música, ele tirou fotos, eu tomava banho quente… A Malu veio com a bola e exercícios…. Ficamos os três, até que ela percebeu que eu já estava na fase se transição para a expulsiva.

Cheguei na Maria Amélia às 7h com quase 8 cm de dilatação. Foi meio chata a burocracia para subir, acho que isso me atrapalhou um pouco. Eles ficavam fazendo a mesma pergunta mil vezes. Eu fui meio grossa… Rs… “SIM, TO PARINDO. COM LICENÇA!”.

Relato de Parto no Maria Amelia (SUS) - Joice Scavone (3)Quando subimos para a suite de parto, o ritmo das contrações tinha caído. A ocitocina tava muito alta e eu tava meio enlouquecida. A Malu encheu a banheira e eu comecei a fazer força lá. Eles auscultavam o neném e isso me deixava segura para continuar o processo. Às 9h, eu tava com 10 cm de dilatação, mas as contrações ainda não tinham voltado ao ritmo e estavam com força inconstante.

Às 11h30, a bolsa estourou enquanto eu fazia cocô (morri de medo dele cair na privada). Tudo indicava que seria rápido. Eu dormi. Dormi várias vezes. As contrações não voltaram a ficar fortes e de vez em quando alguém auscultava, ou a obstetra, ou a enfermeira obstétrica. Por causa do Lúpus, meu parto seria assistido por uma obstetra e não pela enfermeira.

A Bruna (obstetra) me passou uma enorme confiança e me orientava a fazer força e tentar algumas posições para ajudar o processo. Ela é conhecida como obstetra-parteira, que utiliza a proximidade e o carinho como formas de colaborar para o processo da mãe. A Malu (doula) também sugeria algumas movimentações e fez exercícios com o rebozo (um xale) para que o neném encaixasse. Eles auscultavam sempre que possível. Uma média de 30 em 30 minutos. Eu não havia percebido que havia algo errado. A Bruna e a Malu cuidavam de mim e sugeriam exercícios sem que eu percebesse a preocupação delas.

Disse “não” para algumas coisas que me arrependo – tipo a bola de pilates. Ela ajuda a colocar no lugar a cabecinha (que deve estar virada para dentro do pescoço), mas eu não me senti confortável e recusei – a sensação era a de que ele entraria novamente.

Bom… às 16h, uma médica super fria entrou, pediu que eu deitasse na maca. Ela tinha aqueles residentes a tira-colo que não fazem nada e só olham. Ela disse que eu estava em trabalho de parto há muito tempo e que o bebê iria entrar em sofrimento, recomendou a ocitocina e informou que a cabeça dele não estava virada do jeito correto e utilizou um termo amedrontador do qual não me lembro.

Foi horrível, pois eu perdi totalmente a confiança em mim e fiquei achando que estava fazendo tudo errado. Antes disso, as coisas pareciam estar caminhando, mesmo que devagarinho. Bem… Eu disse “não” para a ocitocina com veemência e pedi que a Malu chamasse a “médica da joaninha” (a Bruna tinha um cordão de crachá com umas joaninhas). A Bruna veio e eu perguntei para ela se o bebê corria perigo, se eu estava fazendo tudo errado… Ela respondeu que a minha força estava correta. O problema era que as contrações estavam fracas. Ela disse que se as contrações aumentassem, a cabecinha dele entraria no lugar. A Malu fez um exercício para tentar ajudar e a Bruna garantiu que o Antônio estava bem e que me avisaria quando e se ele corresse algum perigo.

Eu fiquei fazendo mais força do que as contrações pediam e acabou rolando um avanço, mesmo com contrações fracas. Deu para sentir o cocuruto do Antônio e a Bruna elogiou a minha força e colocou a mão no lugar para onde eu deveria empurrar. Eu estava muito cansada. O Diogo diz que era tudo uma questão de instinto, eu caminhava pelo quarto até encontrar o melhor lugar para parir e tanto a obstetra Bruna, quanto a doula Malu, respondiam que eu saberia o que fazer. Todos pescavam, mas a cada contração eu dizia: “vamos lá!”. E todos se posicionavam como se o Antônio fosse nascer. A Malu atrás de mim me ajudando a “arreganhar” o meu quadril com – pasme – muito conforto. O Diogo do meu lado. Eu segurava a mão dele e fazia força olhando para o teto de forma contínua até sentir pressão nos olhos. E a obstetra Bruna na frente. Meus pés estavam nos joelhos dela e eu sentada na banqueta de cócoras. Ela ia girando a cabecinha do Antônio na mão à medida que eu conseguia empurrá-lo.

Eu coloquei a mão e senti a cabecinha dele, então acreditei que nós conseguiríamos. Ela o auscutou e elogiou que ele também estava agüentando bem, sem nenhuma variação dos batimentos cardíacos. Então… Olhei para o lado – todos nas posições “pescavam”, inclusive a Bruna. Eu senti que a contração seria mais forte e pensei: “é agora ou nunca”.

Antes disso: o plantão da Bruna iria acabar às 19h e só era possível aquele parto com a dedicação dela para que o giro acontecesse. Eram 18h30 e eu perguntei: “até que horas é o seu plantão?” E ela respondeu: “até o Antônio nascer”.

Bem… Todos cansados e eu disse: “vamos lá!”



Eles se posicionaram como das outras vezes, mas dessa vez despertaram quando eu não parei de empurrar. A Bruna ficou desesperada e meio que me desencorajou para dar tempo de chamar a pediatra, mas eu não parei de empurrar até ele nascer. O Diogo saiu de sunga gritando: “pediatra!” e o Antônio nasceu saudável, sem intervenção, com apgar 9.9. Ficamos muito à vontade na suíte o tempo todo e os funcionários nos respeitaram muito, desde a luz baixa e música, delicadeza ao entrarem no quarto até os primeiros cuidados com o Antônio.

Relato de Parto no Maria Amelia (SUS) - Joice Scavone (2)Eu tive zero laceração. Agora que percebi uma hemorróida saltada, mas sem dor. Rs… A outra coisa foi que fiquei com dor no cóxis, que ficava apoiado na banquetinha. Ele nasceu e colocaram-no para mamar e enquanto ele estava no meu peito o Diogo cortou o cordão. Ele nasceu às 18h43, antes do plantão acabar.

O quarto coletivo foi outra experiência incrível. A troca entre as mães é muito importante. Fiquei no quarto com mães com histórias completamente diferentes e as famílias se ajudavam. Todas as famílias ajudaram uma puérpera que teve um princípio de depressão pós-parto e hoje ela já estava super bem. O clima geral da maternidade é de um bom astral, desde os acompanhantes até dos funcionários, incluindo o cartório. A comunhão acontece entre todos, em suas diferentes carências e dúvidas.

Foi linda toda a experiência. E as enfermeiras lá são ótimas com as pacientes. O universo é todo feminino e as mulheres (enfermeiras, faxineiras, …) participam de todo o processo com perguntas sobre o sangramento da mãe e a mamada dos bebês. Um orgulho muito grande desse Projeto Cegonha! O Antônio mamou assim que nasceu e pegou bem, mas começou a chicletar e deu uma machucada… Mas nada absurdo. Ele mama muuuuito! Rs… Eu não lembro da dor. Só lembro da vontade enorme de que desse tudo certo. Eu falava com ele o tempo todo e com o Diogo. Eu quase quebrei a mão do Diogo. Foi muito importante o pai ter ido. O parto foi resultado de toda essa força e amor.”

Fotos: Diogo Lisboa – o pai do bebê e fotógrafo.

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