Sobre o Sacrifício no Cuidado com as Crianças

Por Juliana Brum, Educadora e Psicopedagoga

Quando se aproxima o fim de semana, feriados ou as férias escolares é comum ouvirmos relatos ressaltando o quanto é difícil estar em meio às crianças em tempo integral e dar conta das demandas que envolvem este momento. Paralelamente, também está disponível uma infinidade de dicas,  propostas de atividades e programas para todos os gostos e bolsos, que garantam o preenchimento do tempo das crianças, prometendo aos adultos alguma ‘pausa’ para que possam se ocupar de si mesmos.



Há que se ressaltar que o cuidado com as crianças, bem como a organização de sua rotina e necessidades, ainda recaem sobre as mulheres por diversas razões e que isto somente será desconstruído no dia-a-dia, aliando as nossas pequenas ações cotidianas à atuação de políticas públicas e práticas que resultem em uma maior equidade na sociedade. Não vou me ater a esta análise, uma vez que ela já está sendo brilhantemente feita por outras mulheres, mães e profissionais incríveis. Apenas trouxe algo que contextualiza a nossa conversa aqui.

Meu objetivo agora é iniciarmos uma reflexão sobre o cuidado. Por definição, seria a ação de cuidar, tomar conta, preservar, apoiar…e todos os outros significados associados a este termo. Ocorre que o cuidar também implica em respeitar e capacitar. E este entendimento será fundamental para que a ação de cuidar seja realizada de forma eficaz.

Quando se trata do cuidado com os bebês e crianças é uma constante associá-lo a ações exaustivas e, por vezes até a negligência do cuidador/cuidadora consigo mesmo. Como se as demandas da criança, ou mesmo do bebê, fossem capazes de monopolizar seu cuidador principal de forma a fazê-lo anular suas necessidades mais essenciais, como comer ou tomar um banho. Isto se agrava ainda mais quando sabemos que o cuidado principal das crianças fica a cargo das mulheres, que já crescem sendo “treinadas” a serem negligentes com suas próprias necessidades mais básicas (quem de nós, mulheres mães nunca se viu nesta situação?).

Entender que o cuidado seja isto nos leva para a armadilha de que fazê-lo, plenamente, significaria atender “totalmente”, não deixar “falhas”, dar conta de tudo e não permitir que “nada falte” a quem cuidamos – no caso aqui, as crianças e bebês. Daí, com a melhor das intenções, esquecemos o quanto é importante deixarmos um espaço para a falta. Para que se manifestem as reais necessidades e desejos do outro. O quanto esse espaço é fértil ao desenvolvimento e à capacidade de aprender. Simplificando, caso atendêssemos 100% das necessidades das crianças estaríamos jogando contra elas e não a favor. Não estaríamos contribuindo para o desenvolvimento do sujeito capaz, mas fazendo exatamente o contrário. Sem falar que é impossível atender o outro em 100%. Isto é uma ilusão! A ilusão do controle. Taí mais uma armadilha da qual podemos falar mais num outro momento.

Todavia, ninguém se atreve a dizer que cuidar de uma criança não dê trabalho, não seja desgastante ou não exija esforço. Porém, precisamos desconstruir a associação do cuidado ao sacrifício. Quem se sacrifica gera danos para si e acaba (mesmo sem intenção) esperando algum reconhecimento, algum tipo de retorno. Sem falar na “bomba-relógio” que se torna a pessoa sob sacrifício constante…em algum momento haverá uma ruptura, uma explosão, com consequências para todos.

Creio que este texto seja apenas uma reflexão inicial, ainda assim, sugiro o seguinte exercício: diante de uma situação de exaustão no cuidado com as crianças, pergunte-se “este esforço se sobrepõe às minhas necessidades e aos meus limites?”. Se sim, dê um passo atrás. Olhe para si e pegue o fio da meada antes de seguir adiante. Quando ultrapassamos nossos limites, deixamos de cuidar e passamos a nos sacrificar apenas, repetindo ações e tarefas sem estarmos presentes de fato na relação com o outro. As crianças sentem esta “ausência”, sofrem e nos denunciam isto a todo tempo.

Que possamos refletir juntas sobre tudo isto e olhar profundamente para nós mesmas com acolhimento e empatia. Com responsabilidade, mas sem culpa. Uma sociedade mais justa, igualitária, assim como políticas públicas mais eficazes, uma rede de apoio disponível e a tão desejada tribo para criar uma criança serão potencializadas pelo nosso exercício de entender profundamente o significado de cuidar, respeitando os limites do cuidador e capacitando aquele que é cuidado para que se desenvolva plenamente e seja capaz de reproduzir a saúde do cuidar.

 

Juliana Brum, Psicopedagoga e Consultora em Educação.
Atendimento a crianças, famílias, educadores, escolas e iniciativas parentais de educação em grupo ou individualmente. Co-fundadora do Movimento BrincaCidade. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
e-mail juliana.brum2@gmail.com
Tel: (21)98843-9377
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1 comentário

  1. Fernanda Prata comentou

    Você me descreveu. Obrigada pelo texto, me abriu os olhos pra muita coisa. Obrigada mesmo! Parabéns

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