Transtorno Opositivo Desafiador – Uma Visão Diferente

Crianças são essencialmente inquietas, ativas, livres e criativas. Crianças agem a partir da conexão com sua plena potência. Querem muito. Querem tudo. E querem agora. Reagem àquilo que ameaça a sua livre expressão no mundo e, antes de qualquer coisa, querem brincar! Elas são seu próprio brincar, seu próprio fazer enquanto brincam.

Mário Quintana já disse lindamente “Crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade”. E como fica toda essa lindeza no mundo em que vivemos?



Nessa sociedade que ainda valoriza aquele que cresce rápido e rapidamente atende às demandas adultas. Tempo e comportamentos adultos nos são empurrados goela abaixo desde bebês. Criança boa ainda é sinônimo de criança quieta. Aquela que não se adapta rapidamente já fica em observação, como se manifestasse uma tendência a “sair da curva”. Essa observação também já tem um tempo determinado a partir de uma medida adulta.

Não raramente, a criança que permanece apresentando os chamados “comportamentos inadequados” (sob um olhar adulto) recebe um rótulo, quando não, um diagnóstico. A criança – e sua família, claro! – é posta num “quadrado” e isto parece resolver a questão. Criança diagnosticada, família informada=transtorno tratado, sociedade acalmada. Vejamos…não ganha a criança, que já teve sua autoestima abalada. Não ganha a família, que facilmente é posta no lugar da culpa e da vergonha. Mas ganha a sociedade…essa mesma que parece produzir tantos transtornos no lugar de olhar a infância com o devido respeito.

Não nos parece estranho que em uma criança tão pequena, que ainda apressa-se para conhecer o mundo, se manifeste algo como um Transtorno Opositivo Desafiador? Um transtorno que, sendo entendido a partir da sua definição diz do comportamento que desafia insistentemente a autoridade. Vale um parêntese para lermos juntos sobre a origem do termo AUTORIDADE, que vem do latim auctus, do verbo augere, que significa aumentar, fazer crescer. Ainda sobre a origem, encontrei autócritas, significando exemplo, modelo. Caminhando mais por essas definições podemos dizer que autoridade é o poder conferido pelo consentimento. Oras…podemos pensar então que o exercício da autoridade deve ser construído e não imposto.

Pessoalmente, gosto de pensar em autoridade como algo até relacionado à admiração. Não passa pela obrigação, pela definição de regras ou pela imposição. A autoridade que “faz crescer” está relacionada ao respeito e à construção conjunta de um lugar. Partindo disto, fico pensando sobre essa autoridade adulta que vem sendo constantemente desafiada pelas crianças… Estamos falando de uma autoridade construída conjuntamente? Uma autoridade que faz crescer? O que estamos querendo das crianças que para elas ainda é tão difícil? Por fim, o que seria considerado como comportamento característico da infância e o que é de fato uma patologia? Temos cada vez mais urgência em diagnosticar. Queremos o diagnóstico porque queremos tratar, sanar, o quanto antes, aquilo que gera dor. Sobre isto, Alícia Fernandez escreve: “Ao ceder a essas pressões, ao diagnosticar apressadamente, supostos transtornos cuja terapêutica se baseia em medicamentos, nosso fazer, pensar e intervir esvaziam-se de sentido.” Sob uma outra perspectiva, essa dor que tanto desejamos calar pode ser um chamado à refletir ou um convite a parar, ver, ouvir…a atender.

Na sociedade da eficiência a reflexão nem sempre soa bem, assim como o questionamento. Tudo isto exige tempo, acorda incômodos e ameaça estruturas convenientemente consolidadas. O que essa criança que não se aquieta, que me enfrenta, que não se cala e que, portanto, me desafia, diz de mim mesma? Com quais sentimentos meus esse comportamento dela me obriga a lidar?

Farei um rápido paralelo com um outro transtorno já bastante difundido, o TDAH, apontado frequentemente como causa do fracasso escolar. Nas palavras de A. Fernandez “ante uma pergunta tal como ‘por que João não presta atenção?’ se aceitarmos a resposta rápida e geral: porque é TDAH – nosso próprio espaço de atenção se estreita. Tal resposta para a pergunta pelo por que costuma fundamentar-se na quantidade de vezes que alguém manifesta uma conduta de acordo com o critério do observador, seja ele um dos pais ou o professor.” Em outras palavras, com os recursos que eu tenho, observo uma criança que me desafia insistentemente como algo ruim, como alguém que sofre de um transtorno e não como alguém que está me tirando do meu lugar “confortável’,  me trazendo de presente uma oportunidade de reflexão e consequente ação sobre um comportamento meu. Apontar o outro apenas diz “eu estou em você”. Apontar no outro algo que me desagrada significa “eu estou em você” e aí o que me desagrada não é você, mas algo que eu mesma tenho.

Contudo, não estou aqui para dizer que os transtornos não existam ou que não devam ser tratados. Não é minha intenção ser mais uma a apontar como culpados os pais da criança diagnosticada. Pelo contrário! A culpa aí seria nossa inimiga. Ela imobiliza, não responsabiliza. Sugiro que sejamos responsáveis ao invés de culpados. Diante da situação em questão, em que uma criança apresenta um comportamento bastante desafiador, talvez seja interessante atendê-la. Observá-la verdadeiramente para atendê-la naquilo que ela realmente precisa. Não é o que eu, adulta, acho que ela precisa. Muito menos o que eu preciso (ou precisava na infância), mas o que ela está demandando agora, no seu tempo.



Durante um tratamento, é fundamental que a criança sinta que está sendo abraçada juntamente com a sua família. Este grupo precisa construir junto uma forma de lidar com as demandas diversas sem tamponar suas características genuínas. Fazer isto é manter a saúde. É enxergar no transtorno e no comportamento desafiador das crianças uma oportunidade de olhar prá si mesmo e se (re)educar, segundo parâmetros mais humanos do que esses determinados pela sociedade e seus códigos de conduta. Às mães que recebem o diagnóstico de um transtorno de comportamento dos seus filhos e filhas, peço calma e me coloco a disposição para caminhar junto. Vocês estão recebendo uma oportunidade de devolver à sociedade não somente uma criança tratada (calada!), mas uma criança viva e atendida pela sua família, íntegra na sua autoestima e digna da convivência social com toda a sua singularidade. Se nós, sociedade, não formos capazes de lidar com isto, vamos, no mínimo, não repassar essa responsabilidade às crianças.

Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais: DSM V. Tradução Maria Inês Corrêa Nascimento, revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli. Porto Alegre, Artmed 2014.

Fernandez, Alícia. A atenção aprisionada: psicopedagogia da capacidade atencional/Alícia Fernandez: tradução técnica: Neusa Hickel, Regina Orgler Sordi. Porto Alegre: Penso 2012.

Site origemdapalavra.com.br acesso em maio de 2016.

Juliana Brum, Psicopedagoga e Consultora em Educação.
Atendimento a crianças, famílias, educadores, escolas e iniciativas parentais de educação em grupo ou individualmente. Co-fundadora do Movimento BrincaCidade. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ.
e-mail juliana.brum2@gmail.com
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2 comentários

  1. Sibyle comentou

    Concordo inteiramente com o texto. Refletindo sobre o discurso de um primo meu que atua como propagandista da indústria farmacêutica de medicamento para TDAH, percebo que há interesses financeiros em fazer a sociedade acreditar que as crianças precisam da medicação e que não há saída a não ser “acalmá-las” para que se enquadrem no comportamento dito ideal. Sedar, distrair com iPads, terceirizar vínculo para babás, desse modo o filho será mais um luxo, uma ostentação para exibir algumas vezes por ano. Ando preocupada com essa temática.

  2. Cesar comentou

    Texto sensato e equilibrado. Acredito que a medicação deva ser a última e derradeira opção. Tudo que puder ser feito, discutido ou analisado antes disso é válido. Ainda que os resultados não sejam imediatos ou exatamente o que se espera. Cada criança é um eu em formação, em sintonia com todos os estímulos e interesses que a rodeiam. Vamos cuidar das nossas pessoinhas, com o mínimo de medicamentos possível.

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