Eu Não Sabia Que Estava Grávida

eu nao sabia que estava gravidaEu não sabia que estava grávida…

Muitas mulheres sonham com a maternidade desde a infância: a brincadeira com suas bonecas é uma preparação, cuidam delas e escolhem nomes para os seus futuros bebês. Ser mãe é um sonho e um objetivo, não conseguem imaginar a vida sem isso. Eu, definitivamente, não era uma delas. Não gostava de brincar de bonecas e ter filhos não era algo com o qual eu sonhava ou havia planejado. Pela maior parte da minha vida, ser mãe era algo que eu acreditava não ser para mim. Não convivi com muitos bebês e a fragilidade deles me causava pânico; tinha medo até de segurar um e constantemente tinha a impressão de que o desconforto era algo recíproco – bebês não ficam à vontade comigo.

Apenas quando eu conheci o meu marido, isso deixou de ser uma certeza, pois eu via nele um possível bom pai. Porém essa ainda era uma decisão sobre a qual estávamos conversando, algo que pensávamos que poderíamos decidir no então longínquo ano de 2016, para a qual ainda não havíamos nos preparado… eu pretendia primeiro terminar a minha segunda graduação e ele o seu mestrado.



Então, inesperadamente, eu estava grávida e essa descoberta foi o meu primeiro contato com a tão temida culpa materna da qual já ouvira muito a respeito.

Ao fazer uma ultrassonografia de rotina, recebi a notícia ao mesmo tempo em que tive uma das conversas mais surreais da minha vida, uma vez que o médico que estava fazendo o exame não imaginava que eu não fazia ideia da gravidez quando me perguntou se estava tudo bem com o meu bebê e eu imaginava que ele estava vendo a ficha de outra paciente. Só não caí com o choque, pois estava deitada.

Como desde que eu havia interrompido o uso de anticoncepcional o meu ciclo menstrual não havia se regularizado, resolvi na véspera desse exame fazer um teste de gravidez de farmácia em casa e não deu nada, não apareceu listra, cruz, nada… Ficou tudo branco… Supus que não estivesse grávida, mas aparentemente eu fiz xixi errado no palito.

Naquele dia 28 de outubro, do qual não vou me esquecer, descobri que sim, eu estava esperando um bebê, e o médico me informou que pelo desenvolvimento não se tratava de embrião mas de feto, provavelmente eu estava na 10ª semana ou próximo disso – como a máquina em que o exame estava sendo feito não era a adequada para as medições, ele iria rever as imagens depois e emitir um laudo o mais breve possível, assim ele me disse e o recebi poucos dias depois. Essa notícia tornou o susto maior ainda! Fiz as contas e dez semanas seriam mais de dois meses!

A ultrassonografia foi muito clara, e apesar de não me lembrar de tudo direito em razão do choque, eu ouvi o coração da minha filha ali, pela primeira vez. Antes da felicidade que passei a sentir conforme a ficha foi caindo, o que experimentei foi uma sensação terrível de culpa, por tudo o que tinha feito (toda as refeições de comida japonesa e seus peixes crus ingeridos até ali, pensei no peso que havia carregado no trabalho, todo o esforço que fiz na viagem da qual eu havia retornado para casa há poucos dias, a mamografia do mês anterior, etc.) e também por tudo o que eu não tinha feito e sabia que deveria estar fazendo (tomar ácido fólico e vitaminas, fazer uma dieta mais adequada, ter dado fim no sobrepeso que permanecia ali à vista, todos os exercícios que deixei de lado, etc.).

Saindo do consultório médico tudo o que eu conseguia pensar era em

todas as coisas que podiam dar errado em razão disso tudo e sentia-me péssima. Cheguei em casa e chorei com medo e também por achar que não estava preparada para ser mãe, que eu não tinha planejado nada daquilo e que eu ia estragar tudo.

Embora não possa falar sobre a maternidade, de como e se estragarei tudo, sei que do momento em que descobri que tinha um pequeno ser crescendo ali no meu ventre, eu fiz o que eu podia para que ela ficasse bem. Comprei e comecei a tomar vitaminas pré-natais, corri contra o tempo para conseguir uma obstetra que pudesse me acompanhar (e marcar horário com obstetras, ainda mais de plano de saúde é um suplício! A primeira com quem me consultei foi por indicação, não tinha plano e depois de contar toda minha história para a atendente eu consegui um encaixe na semana seguinte). Não é nada fácil, pois é preciso encontrar alguém em quem você confie e lhe tranquilize. Essa primeira médica conseguiu me tranquilizar, explicou-me tudo o que eu precisava saber, sanou minhas dúvidas – que eram praticamente infinitas!

Felizmente, depois de algumas consultas e de experimentar uma segunda obstetra, eu consegui alguém do meu plano de saúde e ela acompanhou minha gravidez e o crescimento da minha filha. Uma médica em quem eu tenho confiança e que me deu as orientações que eu precisava em cada fase.

Quando você descobre uma gravidez quase no final do 3° trimestre e não tem um(a) ginecologista de confiança, tudo parece mais difícil: você tem que correr para fazer os exames, tomar vitaminas e tentar recuperar o tempo perdido, quando comparado com quem planejou ter um filho e vinha tendo todos os cuidados e acompanhamento necessários.

Também é um pouco complicado lidar com quem está ao seu redor, pois as pessoas não entendem que você não sabia e como é possível não ter sentido nada. E eu não sentia nada: enjoos, náuseas e vômitos, cansaço fora do normal, nada do que outras mulheres me descreviam como seus sintomas. Não tive nada disso. Era minha primeira gravidez, então não consegui identificar sintomas mais sutis, como a alteração no meu olfato, por exemplo.

Há também algo de positivo nessa descoberta tardia, ao menos para mim e minha ansiedade: não tive que lidar com as incertezas e tudo o mais que aflige quem está tentando engravidar, como a dúvida se seria capaz de conceber.



Estou na 39ª semana e mesmo descobrindo mais tarde, não tendo me preparado como gostaria caso eu pudesse, tive um bom atendimento no pré-natal, consegui ganhar peso de forma adequada, e felizmente não tive nenhuma intercorrência… Por fim, não foi uma decisão que racional minha e do meu marido, não escolhemos a hora, mas temos a certeza de que Deus esteve e está no controle.  Então, agora estamos aguardando a chegada da Ana Sofia.

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Danielle Fernandes, com 35 semanas de gravidez, esperando o seu primeiro bebê, Ana Sofia.

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