O Dia Que Eu Morri Um Pouquinho Por Dentro

O Dia Que Eu Morri Um Pouquinho Por DentroAcho que muita gente aqui já sabe do que aconteceu comigo. O que aconteceu comigo é uma coisa bem comum de se acontecer por aí: aborto espontâneo no primeiro trimestre da gravidez. O que muita gente não sabe é como aconteceu tudo isso e as poucas pessoas que souberam da história se chocaram.

Hoje venho aqui de peito aberto me abrir com todos e falar todos os detalhes da minha história. O dia que o meu chão se abriu e eu morri um pouquinho por dentro.

A verdade é que, desde esse dia, 30 de janeiro de 2012 eu nunca mais fui a mesma. Isso mexeu muito comigo, mexeu a minha forma de ver o mundo, mexeu com as minhas crenças, mexeu com a minha vontade de ser mãe, mexeu com os meus medos.



Nós morávamos na Irlanda desde 2008, mas no final de 2010, já morando em uma cidade pequena chamada Dundalk no Condado de Louth, resolvemos que seria hora de tentarmos um bebê. Estávamos relativamente bem de vida, nem ricos, nem pobres, mas com dinheiro para conseguir sustentar uma criança. Nos sentíamos também psicologicamente preparados para a maternidade.

Levei 1 ano para engravidar. Descobri a gravidez no Natal de 2011, quando meus sogros estavam nos visitando. Foi uma alegria só. Uma alegria sem tamanho! Principalmente porque fomos pegos de surpresa depois de tanto tempo tentando.

Os meses foram se passando e os exames foram sendo feitos. Estávamos tão felizes que já estávamos olhando o enxoval. Pronto, carrinho de bebê comprado! Fraldas e roupinhas também. O amor entre marido e mulher só crescia e eu estava muito feliz com tudo.

Só não tinha contado para ninguém, apenas para nossos pais (avós do bebê) porque aqui na Irlanda é costume só contar no segundo trimestre, já que as mulheres sabem que muitas perdem os bebês no início e preferem se resguardar. Eu entrei na onda, mesmo sentindo que nada iria acontecer com meu bebê.

Ledo engano.

Dia 30 de janeiro de 2012, com 10 semanas de gestação, ansiosíssima para mais 3 semanas para poder fazer aquela ultrassonografia que descarta síndromes genéticas que já estava marcada, eu senti um sangue descendo pelas minhas pernas.

Fomos para a clínica onde eu fiz meu primeiro ultrassom, clínica essa que fica na Irlanda do Norte na cidade de Newry, ou seja, outro país. A enfermeira que fez o meu segundo ultrassom para checar se estava tudo bem com o bebê disse “sinto muito, mas o coração parou de bater”. Eu fiquei em choque mas não chorei. Já meu marido chorou no mesmo momento. Eu olhava para a tela do ultrassom e via aquele bebezinho sem vida, muito diferente do que eu tinha visto uma semana antes, um corpinho flutuando e se mexendo bastante, agora estava ele ali, sem vida e sem se mexer.

Eu não sabia o que fazer, não sabia o que pensar. Eu só queria me livrar daquele pesadelo o mais rápido possível. “Você deverá ir no hospital em Drogheda, que é o hospital do seu condado e do seu país”. Eles não podiam me atender nos hospitais da Irlanda do Norte porque eu não pagava os meus impostos naquele país, eu tinha que ir na cidade ao lado da minha que é onde ficava o hospital da minha região.

Fomos no hospital de Drogheda e ficamos horas esperando para que eu fosse atendida. Depois de 4 horas na fila não me aguentei e desabei. Comecei a chorar copiosamente até que apareceu alguém para saber o que estava acontecendo comigo e eu contei toda história. Ele me levou para dentro das dependências do hospital. Assim que entrei olhei em volta e me senti em um hospital público no Brasil com pessoas deitadas em colchões pelos corredores, sangue pelo chão, muita sujeira, muita desordem.

Depois de ficar em uma maca esperando o médico veio e me disse que não aceitavam ali o ultrassom de outro país, que eu teria que fazer um ultrassom deles para acreditarem na perda gestacional. Eu disse “ok, mas vamos acabar logo com isso” mas o médico me disse que só teriam agenda para o ultrassom uma semana depois! Também me explicou que se confirmada a perda gestacional eu teria que passar por uma cirurgia chamada curetagem, para fazer uma raspagem do útero e retirar o feto sem vida. Fui para casa incrédula de que nada poderia ser feito para me ajudarem logo.

Liguei para o meu médico no Brasil e disse que eu queria pegar um vôo e cuidar disso em casa. Ele me proibiu de viajar nessas condições e disse que seria perigoso, ou seja, eu teria que resolver esse problema aqui mesmo, longe dos meus amigos, longe da minha família, só com o meu marido para me dar colo.

No dia seguinte fui na minha médica, na clínica perto de onde morávamos. Aqui na Irlanda é assim, você é acompanhada por uma médica generalista durante a gestação mas também faz visitas ao hospital onde um obstetra e uma enfermeira obstétrica te acompanham. Pedi para essa médica, da clínica, um calmante e ela me passou um calmante chamado Stilnox. O que eu não estava esperando é que esse calmante ia me dar alucinações.

Eu tomava esse remédio e via coisas. Um dia vi gelatina no meu copo, outro dia vi um bicho escondido no armário, no outro dia deitei na cama com um homem que parecia o meu marido mas não era (ele teve que me convencer e me acalmar de que ele era ele mesmo). Após uma busca no google achei relatos de outras pessoas que tomaram o remédio e tiveram alucinações, como uma pessoa que viu homenzinhos brancos saindo do teclado do computador. Resolvi tomar metade a partir desse dia e as alucinações sumiram e eu conseguia dormir.

No dia do ultrassom no hospital foi confirmado o que eu já sabia. O meu bebê não tinha mais vida. Além de tudo o bebê já estava diminuindo de tamanho e olhando na tela do ultrassom eu também vi um bebê bem curvado, como se estivesse encolhido.  Marcaram a curetagem para alguns dias depois e eu sem acreditar que esse pesadelo ia acabar. Já tinha se passado mais de uma semana e todos os dias durante essa semana, toda vez que eu ia ao banheiro, eu ficava procurando no meio daquele monte de sangue o meu bebê. Não queria de jeito nenhum que ele fosse parar na privada e que eu desse descarga nele. Não queria esse fim para o meu bebê, eu estaria sendo uma péssima mãe se eu permitisse que isso acontecesse, pelo menos foi assim que me senti, que era minha responsabilidade evitar esse fim.

No dia anterior a curetagem eu fui procurar um pouco sobre o Hospital de Drogheda, pois a imagem daquelas pessoas doentes deitadas no corredor e sangue pelo chão me chocou. Acabei descobrindo que era um dos piores hospitais do país. Acabei descobrindo mais do que isso até: descobri um médico que trabalhava lá e que retirava o útero das pacientes. Quem quiser saber mais sobre a história segue aqui o texto em inglês.  Parecia história de terror mas eu não queria mais ir para esse hospital. Liguei para o meu marido aos prantos e falei que não queria ir para lá. Ele imediatamente começou a ligar para um monte de médicos em Dublin, na capital, e fomos parar nas mãos do Dr Peter Lenehan, por sorte do destino de uma paciente que desistiu da consulta.

No dia seguinte, quando era para eu ter a minha curetagem naquele hospital desumano, eu estava sentada na sala de consulta do Dr Peter Lenehan. Contei toda a minha história para ele. Ele segurou na minha mão e disse que iria me ajudar. Pela primeira vez eu me senti protegida e segura. Eu confiei ele. Marcamos a curetagem para o Maternity Hospital em Dublin, um dos hospitais maternidades da capital.

A curetagem aconteceria dia 15 de fevereiro, é um outro dia que eu não consigo me esquecer. Foram 16 dias de espera com um bebê morto dentro do meu útero. Muitas noites que eu dormia somente com calmante, muitas idas ao banheiro para procurar se o meu bebê estava no meio daquele monte de sangue, muitos dias sem me alimentar direito, muitos dias de muito choro e sofrimento. Uma coisa que eu não desejo para mulher nenhuma é carregar o seu filho por 16 dias sem vida no seu útero. É uma dor que eu não consigo descrever em palavras. É uma cicatriz que ficou na minha alma que eu nunca me esqueço. Sempre que chega essa época do ano eu me sinto estranha, eu me transporto para o passado e sinto a dor que eu passei.

O Maternity Hospital em Dublin, diferente do Hospital de Drogheda, era muito limpinho e bem cuidado. Parecia que eu estava em outro mundo mesmo. Me senti segura e muito bem cuidada  lá.

Antes da curetagem eu fiz mais um ultrassom e o bebê estava muito pequeno e já parecia uma bolinha. Não dava mais para ver um formato de feto na tela o ultrassom. Me perguntaram se eu queria ficar com as fotos do ultrassom e eu recusei. Não queria lembrar do meu primeiro filho daquela forma. No quarto me deram um remédio sublingual, não sei o que era mas eu não estava me importando muito, só queria acabar logo com aquilo. Me disseram que eu sentiria dor. E eu senti. Como se o meu corpo quisesse expulsar o meu filho. Logo me levaram para a sala de cirurgia onde estava o Dr Peter Lenehan.

A curetagem aconteceu e eu acordei numa sala com uma cortina em volta de mim. Eu ouvi um choro sentido, provavelmente uma outra mulher havia passado pelo mesmo processo que eu. Não resisti e chorei junto. As enfermeiras vieram até mim e me ofereceram água, eu aceitei. Logo fui mandada de volta para o quarto, onde meu marido me aguardava. Lá me perguntaram se eu queria saber se poderiam me telefonar para dizer se encontraram o feto na máquina de curetagem, pois segundo eles, as vezes o feto fica irreconhecível. Eu disse que sim, para que me ligassem para me contar.



O mais duro nesse dia foi sair do hospital, o mesmo hospital onde vários bebês nascem por dia, e ver famílias felizes indo para casa com seus pequenos embrulhos e sorrisos estampados no rosto. Chega a ser cruel você cruzar com essas pessoas.

Ao perder um bebê você se culpa, mesmo não tendo culpa, você procura algo que possa ter feito de errado, você culpa o seu parceiro e vocês brigam por isso. Aliás, já vi alguns casamentos acabarem por causa de aborto espontâneo. É uma barra que nem todo casamento consegue sair intacto. Eu acho que nenhuma mulher deveria passar por esse tipo de experiência. Mas passa. Assim é a vida. A vida é cruel. Tenho pé no chão de saber que existem histórias muito piores do que a minha eu conheço algumas mas não é o caso de contar aqui, não estou aqui para falar da intimidade da vida das outras pessoas.

Leia aqui a emocionante carta que eu escrevi para as mães que perderam seus bebês.

Acho que o mais pesado para mim foi o tempo que fiquei com o meu bebê morto dentro de mim. Talvez se tudo tivesse sido resolvido com rapidez eu não me sentisse tão frágil e traumatizada em relação à esse assunto.

Alguns dias depois me ligaram do Hospital. Não consegui atender. Tive medo de saber se encontraram o meu bebê. E aí? Eu teria que ir vê-lo? Eu conseguiria ir vê-lo? Muitas perguntas se passaram pela minha cabeça enquanto eu olhava para o celular tocando. Não atendi e acabaram desligando. Não tentaram ligar novamente. Eu nunca vou saber se encontraram o meu bebê, mas talvez tenha sido melhor assim.

Por esse motivo decidimos voltar para o Brasil, para ficar perto da família, para ter o nosso bebê em algum hospital que conhecíamos. Eu não queria mais ir parar em um hospital como o Hospital de Drogheda. Com médicos que nem o de Drogheda. Eu estava assustada e precisava ser acolhida, somente isso. Sem pensar muito largamos tudo para trás, tudo que havíamos conquistado e voltamos para o Rio de Janeiro – Brasil. Onde engravidei e nasceu o Eric, lindo, gorducho e saudável. Anos depois tivemos a Mia na Irlanda, mas em outro hospital, em Wexford. Dessa vez pesquisamos bastante antes de decidir pelo hospital.

Acho que hoje em dia eu sou uma mãe muito melhor do que talvez eu tivesse sido para esse primeiro filho que eu perdi. Eu aprendi a dar valor aos meus filhos e mudei muita coisa na minha vida por eles. Hoje eu sou deles, eu pertenço à eles e sou feliz assim. Não me arrependo de nenhum sacrifício que eu tenha feito pela vida deles. E eu acredito muito que as coisas acontecem do jeito que elas deveriam acontecer.

6 comentários

  1. Marielli comentou

    Nossa… parece que eu escrevi esse texto. Exatamente o que aconteceu cmg (só que meu caso eu tava no Brasil mesmo) As pessoas me viam e diziam: Ja ta com barriguinha ne? 9 semanas e ja da pra ve bem… A barriguinha era o inchasso. Eu tava 2 semanas com ela morta dentro de mim e fiquei mais 5 dias depois da ultra. Realmente é a pior sensação do mundo. O clima na minha casa era de velório, e durante muitos meses eu chorei sozinha no meu quarto… Estou em busca de respostas ainda. Meu Go foi um anjo enviado por Deus que me deu caminhos pra eu descobrir a causa do meu terceiro aborto. Estou Fazendo acompanhamento com um geneticista pra descobrir o motivo desses abortos. Só quem passa pra saber. É realmente uma das piores sensações que uma mulher vive. Mas eu tbm acredito que depois dessas perdas eu me torne uma mae melhor para os meus futuros babys… é isso que me mantém com esperança….somente isto!

  2. Rodrigo Vianna Fontes comentou

    Tarja, teu relato é emocionante e lindo, mesmo triste por causa dos teus 2 finais felizes.
    Quando meu bebê nasceu e chegamos em casa, trocamos toda a euforia dá espera por um medo quase insuportável de perde-lo, e esse medo aumentou quando fizemos o teste do pezinho, o qual apontou para fibrose cística. Fizemos recoleta e ainda alterado. O pediatra no Hospital da PUCRS foi zero humanização e disse que não existem falsos positivos no exame de triagem, e lá estávamos nós, lidando com o blues puerperal, cólicas, e é claro, medo.
    Fizemos o teste do suor e: negativo. O choro passou a ser de alegria.
    O que nós tiramos de positivo disso? Aumentamos a nossa fé e confiança em dias melhores. Não sei se isso aconteceu contigo. Pode até ser que minha história nada tenha a ver com a tua, mas precisava partilhar tb. Um grande abraço pra ti e pro Papai Tagarela.

  3. Angela comentou

    Olá Thata, emocionante seu testemunho. Também perdi um bebe a 2 meses. Eu estava com 8 semanas e ele infelizmente não se desenvolveu. Vc tem razão, as coisas acontecem e ficamos procurando onde erramos e o que podiam ter feito para que isso não acontecesse. Espero não passar por isso nunca mais. Parabéns pela coragem de falar sobre um assunto que te trás tanto sofrimento. Bjus!

  4. Thais, sinto muito. Chorei lendo seu relato e nem consigo imaginar, me colocar em seu lugar. Que bom que depois vieram Eric e Mia para colorirem sua vida. Um beijo!

  5. Olá Mamãe,
    Estava lendo sua história enquanto esperava para ser atendida pela médica aqui em Dublin, depois de 2 meses da perda do meu Baby!
    Passei pelo mesmo processo doloroso, em um
    País estranho, sem histórico e confiança nos médicos que me atenderam… fiz dois scan no Rotunda, mas ainda tem aquela dúvida, “e um deveria ter esperado mais?” Será que o coração ia bater em mais um semana?! Mas enfim!
    Acabei de achar uma médica, que Graças a Deus eu gostei, atenciosa, e esperamos ter nosso bebê segundo Bebê e primeiro filho ainda este ano!
    Obrigada por dividir sua história e confortar muitos corações!

    Beijos!

  6. Adriana Lacombe comentou

    Eu nunca passei por isso, e portanto, nunca tinha pensado tão profundamente sobre o assunto, até ler um outro relato de uma mãe corajosa como você. Que doloroso! Que difícil perder um filho, em qualquer momento da vida dele. Obrigada pela coragem de compartilhar.

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